Jornalista e mestra em Comunicação pela UFJF. Trabalhou nos principais
veículos, tais como: O Globo; Jornal do Brasil; Veja; Isto É e o Dia.
Ex-assessora da presidência do BNDES, pesquisadora da Comissão Nacional da
Verdade e CEV-Rio, autora de "Propaganda e cinema a serviço do golpe -
1962/1964" , "Imaculada" e "Claudio Guerra: Matar e
Queimar".
Desta vez, não falta
ninguém em Nuremberg
No julgamento do STF os generais e chefes golpistas
não escaparão da responsabilização
04 de setembro de 2025, 11:50 h
O destino arma
ironias em seu curso. No julgamento de Nuremberg (1945 a 1946 – Alemanha), os
juízes, todos das forças aliadas — Grã-Bretanha, França, União Soviética e
Estados Unidos — julgaram 22 réus, 12 deles condenados à pena de morte. A
maioria dos acusados era de oficiais de menor patente. Os principais
responsáveis pela tragédia do século escaparam. Aqui, tal como lá, o número de
oficiais que embarcaram na tentativa de golpe de Estado é 22. As semelhanças
param por aí. Nesse julgamento, o do STF, há generais e ex-ministros no banco
dos réus. E os chefes não escaparão de suas penas. Todas maiores que dois anos,
o que os levará direto para a indignidade, com perda de posto e patente. Isso,
após o trâmite processual.
Em Nuremberg, a
maioria dos acusados assumiu os crimes de que era acusada, porém muitos
alegaram que estavam "apenas seguindo ordens de autoridades”. Aqui, nem
mesmo o chefe quis admitir a sua participação, que, segundo um dos seus
advogados, Celso Vilardi, Bolsonaro foi descrito como alguém que “foi dragado
por uma sucessão de acontecimentos políticos e jurídicos que culminaram nos
atos golpistas de 8 de janeiro de 2023”.
E disse, com
ênfase, que a acusação não conseguiu nenhuma prova contra seu cliente. Aqui,
como lá, quando se atenta contra a humanidade, contra princípios abstratos como
a democracia, e tão concretos para a vida de todos nós, ou temos esse
sentimento introjetado — a preservação da liberdade, das instituições e do
sistema democrático, por consciência do nosso papel no mundo —, ou a ideia que
passa para o público médio, desinformado e alheio aos seus direitos, é de algo
anódino, pueril, desimportante.
Não lhes diz
respeito, devem pensar. Ato contínuo, o que importa mesmo é a preservação da
sua escolha política, o seu líder, o que deve gerir o país em que vivem, seja
de que modo for, desde que seja ele. O imediatismo, aliado à ignorância e à
falta de espírito cívico, resulta em Tarcísio de Freitas, Hugo Motta, Arthur
Lira e outros do mesmo naipe. Em termos de conceitos filosóficos, jamais nem
sequer cantarolaram o samba-enredo da União da Ilha: “O que será do amanhã?/O
que vai ser do meu destino?”. Querem porque querem. Porque o poder deles é hoje
e ponto.
Desta vez, não
falta ninguém em Nuremberg. Talvez Valdemar da Costa Neto e Ibaneis Rocha sejam
as grandes ausências nesse processo. O que falta agora é a mera conclusão do
julgamento, para sabermos de que tamanho será a pena imposta a cada um desse
vistoso conjunto fardado, de 22 oficiais do nosso portentoso Exército. Nenhum
cumprindo ordens. Todos voluntários de uma causa que desaguaria na opressão, no
autoritarismo, de que a maioria não faz ideia de como funciona. Por serem
jovens, ou por ouvirem em salas de aula que “naquele tempo é que era bom. A
ditadura”.
Queriam porque repetem os “chefes”.
Queriam porque seria uma forma de ganhar “importância” numa nova ordem de um
regime de exceção. Queriam porque não sabem nada do nazismo — nem sequer
compreenderam quando o PGR Paulo Gonet citou o termo putsch para
aludir ao golpe —, mas queriam. Agora não entendem por que esse “ir ali, a
Brasília” os levou ao banco do julgamento do resto de nossas vidas. Talvez
entendam quando ouvirem a sentença e derem de cara com a dura realidade.
Atentar contra a democracia do país dá cadeia. E, desta vez, também para o
chefe. E não toleraremos nada menos que isso.
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